quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Escravidão em pleno século 21


A Folha de São Paulo do último final de semana de agosto traz uma grande reportagem (grande mesmo... algumas páginas) sobre como a riqueza do etanol, o nosso álcool combustível, é mantida através do trabalho escravo, de condições sub-humanas de trabalho.

Dito assim, parece bastante simples. Trabalho escravo, no Brasil, não é exatamente novidade. Porém o trabalho escravo na Folha descrito, é trabalho escravo mesmo da pior espécie. Os pobres coitados que trabalham nos canaviais para encher as burras de seus patrões, os grandes usineiros do álcool, e a boca do Governo Federal, que posa de primeiro mundo nos congressos econômicos internacionais, acordam às 4 horas da madrugada para trabalhar o dia inteiro. Comem a comida fria – e pouca – que levam de casa. Dão mais de três mil (isso mesmo: 3 mil) golpes de facão e fazem mais de três mil e quinhentos (3.500) flexões para colher, em média, nove toneladas de cana ao dia.

A situação piora a cada década, ao invés de melhorar. As condições sub-humanas desta gente é cada vez mais sub e menos humana. Trabalham mais e mais para ganhar menos. Segundo levantamento da reportagem, em 1985 um trabalhador desses colhia, em média, 5 toneladas de cana por dia e recebiam R$ 32,70 por este serviço. Já em 2007, passaram a colher 9,3 toneladas de cana por dia em média para receber míseros R$ 28,90 por isso. Ao trabalhar 26 dias por mês de sol a sol, folgando apenas aos domingos, um trabalhador desses vai tirar a miséria de R$ 751,40. Invariavelmente será roubado. Ainda terá que pagar os suprimentos que compra no trecho, dos próprios patrões. Mais negócio era ser escravo, mesmo, antes da Lei Áurea.

Os equipamentos hightec utilizados na colheita da cana são para inglês ver. Para inglês e para todas as nações da Europa, do primeiro mundo, porque é exatamente a condição aviltante que se impõem aos trabalhadores dos canaviais que fazem o primeiro mundo torcer o nariz para a compra do etanol brasileiro. Com justiça. Qualquer nação que se preze não pode negociar com tamanha brutalidade. O trabalho é penoso e demasiado desumano.

Há vários casos de mortes de trabalhadores dos canaviais que, desconfia-se, sejam resultado do esforço sobrehumano ao qual as pessoas são submetidas. O câncer de pele, resultado trabalho sob sol escaldante sem qualquer resquício de utilização de protetor solar, chega a ser o de menos. Dores na coluna, na cabeça, nos braços, no tórax... câimbras. Tudo isso são companheiros da grande maioria dos trabalhadores dos canaviais, vítimas de esforço físico além da conta. Substâncias cancerígenas resultam das queimadas feitas no canavial antes do corte e impregnam-se nas narinas e pele dos trabalhadores. Exames de urina constatam o fato, segundo a reportagem da Folha.

Segundo o Código Penal, trabalhos exaustivos são considerados crime. No caso, o trabalho em questão é pior do que no tempo da escravidão. Esses trabalhadores “recebem” por pesagem da cana recolhida, o que faz com que provoquem a auto-extenuação em troca de alguns trocados a mais. Mas ainda desconfiam que são roubados no momento do pagamento. Afinal, pobres-coitados sem estudo, não têm como calcular a dificultosa aritmética que inclui, ainda, uma série de descontos e percentuais de produtividade.

A situação é absurda, denunciada por um dos maiores e mais sérios jornais impressos do Brasil, e nada acontece. Está tudo bem para o Governo... está tudo bem para os barões dos canaviais, reis do etanol, os usineiros do álcool. O sistema funciona girando a roda do dinheiro e os trabalhadores... para que servem? Feito o trabalho, extenuados nos canaviais, que morram. Outros os substituirão. São desprezados tal qual o bagaço da cana, depois de espremido e transformado no líquido do combustível do presente-futuro.

O que mais me indigna é saber que enquanto atrizes e atores, cantores e cantores mundialmente famosos protegem animais e ecossistemas, que mundialmente foi possível abolir o uso de peles naturais de animais em roupas, ninguém dê a mínima atenção para seres humanos que são aviltados não só em sua dignidade, mas no mais íntimo de seus direitos: o direito à vida. No mundo atual, o discurso ecológico politicamente correto tornou-se mais importante que a vida de um ser humano.

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